sexta-feira, fevereiro 01, 2008

As Colheres de Cabo Comprido

Conta uma lenda que Deus convidou um homem para conhecer o céu e o inferno.
Foram primeiro ao inferno.
Ao abrirem uma porta, o homem viu uma sala em cujo centro havia um caldeirão de substanciosa sopa e à sua volta estavam sentadas pessoas famintas e desesperadas. Cada uma delas segurava uma colher, porém de cabo muito comprido, que lhes possibilitava alcançar o caldeirão, mas não permitia que colocassem a sopa na própria boca.
O sofrimento era Grande.
Em seguida, Deus levou o homem para conhecer o céu.
Entraram em uma sala idêntica à primeira: havia o mesmo caldeirão, as pessoas em volta e as colheres de cabo comprido. A diferença é que todos estavam saciados. Não havia fome, nem sofrimento. 'Eu não compreendo', disse o homem a Deus, 'por que aqui as pessoas estão felizes enquanto na outra sala morrem de aflição, se é tudo igual?'
Deus sorriu e respondeu:
'Você não percebeu? É Porque aqui eles aprenderam a Dar comida uns aos outros. '

Moral:
Temos três situações que merecem profunda reflexão:
1. Egoísmo : as pessoas no 'inferno' estavam altamente preocupadas com a sua própria fome, impedindo que se pensasse em alternativas para equacionar a situação;
2 . Criatividade: como todos estavam querendo se safar da situação caótica que se encontravam, não tiveram a iniciativa de buscar alternativas que pudessem resolver o problema;
3. Equipe : se tivesse havido o espírito solidário e ajuda mútua, a situação teria sido rapidamente resolvida.

Conclusão:
Dificilmente o individualismo consegue transpor barreiras.
O espírito de equipe é essencial para o alcance do sucesso; uma equipe participativa, homogênea, coesa, vale mais do que um batalhão de pessoas com posicionamentos isolados. Isso vale para qualquer área de sua vida, especialmente a profissional. E, lembre sempre: A alegria faz bem à saúde; estar sempre triste é morrer aos poucos.

(Desconheço o autor. Recebi pela Internet)

domingo, janeiro 27, 2008

A vida...


Extraído dos Malvados

Fazia tempos que não via. André Dahmer é ótimo! xD

Antero de novo

A Um Poeta
(Antero de Quental)

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Reamantismo

MAIS LUZ!
(Antero de Quental)

"Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis,
À borda dos abismos silenciosos...

Tu, Lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro Sol, amigo dos heróis!"


Amo a noite, mas o dia também tem sua beleza (nesse poema principalmente) e não haveria um sem o outro. Se não fosse o Realismo do dia, o Romantismo da noite não teria graça. Se não fosse o obscuro, o sol seria ainda mais comum (e, aliás, seus momentos de maior beleza acontecem entre a noite e o dia - nem um nem outro, ou ambos). Se não fosse o mistério da noite, o Realismo não se consideraria Realismo. E, afinal, há romantismo no céu iluminado e realismo demais nos becos escuros noturnos.

"O último poema" - Manuel Bandeira

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

sábado, janeiro 19, 2008

A Última Crônica - Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nessa perseguição do acidental, quer um flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de coca-cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa a um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a coca-cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaidado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam , discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo, limpa o farelo de bolo que lhe cai no colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

(Fernando Sabino. In: Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1979-1980. v. 5, p. 40-2.)

Memória Seletiva (Casal Bipolar)

Estava almoçando na padaria, na frente de casa, um dia desses. Do outro lado do balcão, havia um casal. Bem silencioso. Na verdade, nem sabia se estavam realmente juntos, até que ela disse:

— Você sempre tem que derrubar esse monte de comida para fora do prato...!
— Por que você não para de implicar? Se não tem nada de bom para falar, não me encha o saco!
— Você que só me enche o saco...

E a briga continuou, entrando em temas que nada tinham a ver uns com os outros e, muito menos, com o tema inicial: a comida fora do prato. Em cinco minutos, já tinham lavado mais roupa suja do que uma lavanderia em uma semana. Os poucos presentes, quietos, ouvindo irritados.
Até que, de repente:

— Pê... - diz a moça, segurando um riso. - Seu zíper...

Ele fica um pouco vermelho (não por estarem lavando roupa suja na frente de várias pessoas, mas pelo zíper), fecha a braguilha e os dois começam a rir.
Esperei que, após a graça passar, eles continuassem a briga, cada vez mais horrorosa que estava ficando. Mas não. Começou com comida, acabou com zíper. E o que foi dito de injúrias, xingamentos, acusações ficou esquecido, como se nunca tivesse acontecido.
Um casal que será feliz, provavelmente: se esquecem e superam problemas dessa forma, nunca terão, de verdade, um problema, capaz de enfraquecer o relacionamento. Só fico em dúvida se a memória deles não estaria afetada por alguma doença... Será que também não vão esquecer um do outro ou esquecer que se amam? Ou será que eles possuem o raro dom, ou melhor, bênção divina (porque isso seria muito mais que um dom) de esquecer o que é ruim e lembrar o que é bom?
Isso é o que todo mundo quereria! Mesmo que se levasse uma vida meio chata, nunca se daria conta disso por muito tempo.

domingo, janeiro 13, 2008

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

(Alberto Caeiro - Fernando Pessoa)

domingo, dezembro 30, 2007

Inteligência Animal

Koko. Para os americanos, esse nome não deve sugerir o que sugere aqui... ou eles queriam rir da cara da macaca. (E fica ainda pior por ser uma macaca, pois faz lembrar "cortar o rabo do macaco"). Aliás, Koko não é uma macaca (e "uma macaca" poderia gerar um cacófato, dito por um gago), é uma gorila.
Apesar do nome, Koko é muito inteligente. Mais ainda do que pensam. Os cientistas ficaram decepcionados quando a gorila comeu o cartão de visitas de um repórter. Acharam um sinal de falta de inteligência. Eu, o contrário. Quem é que não gostaria de jogar fora, logo de cara, um cartão de visitas de um repórter? Para que ele serviria, principalmente a uma gorila? Não conheço o paladar e hábitos culinários de Koko, mas talvez papel seja saboroso aos gorilas. Ou talvez, com toda a sua inteligência, Koko saiba que assim ajudará a reaproveitar esse cartão, transformando-o em adubo e dando-lhe um fim mais útil do que o que qualquer um de nós provavelmente daria (exceto, talvez, o próprio repórter): o lixo.
Falta à gorila um pouco de diplomacia, é verdade, mas não de inteligência.

Coisas não-novas

Vou começar a transcrever algumas coisas que escrevi antes para cá.